quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Palácio de brevidades

Heras e flores selvagens colorem a tez do castelo viridiano
O orvalho nas pétalas cintila lacrimosamente de suas janelas
Hora são pinturas de jardins em promontórios secretos
Ou vez de histórias do exílio de demônios idílicos

E as promessas coletivas de sonhos publicamente impressos
De dias sublimes e idênticos, de noites afogadas do belo
Hora um descanso para olhares ressecados pela vigilância
Ou vez da dissolvência eufórica na arritmia dos tormentos

Todas essas, categorias incendiadas de um projeto iludido
Classes para redimir a improbe criatura de seus quiçá! mais íntimos
Esquarteja-la de sua imaterialidade, aliena-la de seus infinitos

Um projeto de palácio, cuja serenidade é arquitetonicamente falida
Pois tem por princípio desmoronar, harmonicamente, os seus edifícios
A brevidade é sua fundação, em suas colunas há apenas suspiros  

terça-feira, 28 de julho de 2015

Para desmoronar

quero me rasgar
do saber
me despir do
cimento
deixar de estar pó
expelir toda a areia e
desmoronar-me, não concreto
em puro deserto
marginalmente vivo
e frondosamente
seco

quero arder ao sol
sem trégua
nem água
e a oferecer, além do chão
nada
sem sombra
nem fala
só um assovio
do tempo
que o vento rouba
e, sem destino
deixa soprar

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Atrito

Desaparece, na solitária
Bravura do silêncio, a tessitura
Friccional do movimento

Sob o espírito cerrado das Eras,
fantasmas e imagos trepidam,
Fictícios como as memórias narradas
Nos versos motrizes do tempo

E o calor, filho bastardo
Entre Atrito e Momento
Agora calado e em suspenso
Dorme aflito, porém liberto –

A trama dos últimos instantes
É sopro moroso que a estática
Clama, cada suspiro e fragmento,
À nulidade métrica das inquietações

Gustavo Rezende

P.ost S.criptum
Do começo de Junho.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Previsões

O homem frio
Do tempo. Envolto
No plástico das
Luminescências
Ele revolve-se,
Eterno poluente
Da previsão das Eras

No tempo
Seco, o homem.
De ambiguidades
Diminutas, secundárias
E milésimas.
Imundas de presságios,
As horas
Devolvem o mundo

À terra

Gustavo Rezende

sexta-feira, 14 de março de 2014

Imagem corpo

               Sonhos de organicidades com entranhas e mecanismos únicos são delírios de aristocratas, construções de mo[n]struários sobre impérios e teocracias mercadológicas dos sentidos.  Tampouco há apenas um só conjunto de sentidos, pois cada técnica, que surge em cada novo suporte, amplia, distorce ou reconfigura a necessidade e processo humano de reproduzir-se por diferentes significados. E a história humana de sua  [re]representação, não poderia ser mais febril que em seu desenvolvimento no campo da produção de imagens – de si própria ou, mais precisamente, do que acredita-se ser a presença  ou ausência do Eu; e do meio, parte indissociável de muitas noções do que é humano, pois tudo o que habitamos e voltamos nossa atenção sobre, nos apropriamos, o transformamos de acordo com nossas obsessões antropomórficas. E, ao mesmo tempo, os ambientes também se apropriam de nosso corpo em sua espaço-presencialidade, ao passo que, irremediavelmente, o habitat, com maior ou menor grau de artificialidade apropriada – ou graus de antropomorfização – absorvem a imagem-corpo humana a suas matrizes (arquitetônicas, plástico-visuais, energéticas, sócio-administrativas). A partir de então, a imagem-corpo que apropriou-se e transformou o meio, a este retorna, como elemento composicional, integrado por uma paisagem maior que lhe reconfigura, distorce e confere novos significados.

                Assim, podemos antever uma realidade óptica, à luz de projeções do Eu em tudo o que nos cerca, as imagens do homem, da mulher, e das gradações que decantam e multifacetam a concepção tradicional destes gêneros, todas espelhadas na construção do meio, num processo mútuo e retroalimentado de representações [audio]visuais. Neste encerramento por espelhos, encontram-se concepções de mundo, seus significantes e significados, representantes e representados, ensaiando inúmeros sentidos para seus movimentos, alcançado diferentes profundidades na exploração estética das imagens-corpo. Ou ainda, também componente desta realidade, o espaço entre o representante e a recepção dos significados, a fissura endêmica do construto de verdades humanas – o próprio objeto representado, que dispensa  o nosso olhar, sendo absoluto e vazio em si mesmo, que não existe sensorialmente, tal como acreditamos que nós mesmos existimos. E não falamos aqui apenas de pedras ou sal, mas da dissociação das partes desta imagem-corpo, o corpo alienado da imagem, e suas permutações, vice-versas e pluridades semânticas, o abismo sedutor de totalidades inexequíveis, a consciência como corpo? a consciência como imagem? consciência?

                O que podemos fazer, e que no século XX, passou a ser feito com crescente frequência, é projetar nossas imagens-corpos a este vazio entre-espelhos, na esperança de que a luz – a imagem quintessencial – nos forneça fragmentos e contradições que transcendam  nossas verdades categóricas; que possamos traduzir, através da saturação de nossos sentidos, valores semânticos e descobertas que ultrapassem as conquistas da Tradição das linguagens. Pois ela já vislumbra o seu limite. O acesso à substância das iniquidades consensuais necessita de suportes que transitem por estes meios imateriais, que possam mobilizar a energia composicional das formas, afim de descontrui-las, compreende-las o vazio que concretiza suas partes em unidade,  e reformata-las de acordo com as visões traduzíveis neste processo. Aí também o corpo encontra seu limite, dependendo de suportes técnicos cada vez mais inorgânicos, que estrapolam suas capacidades cognitivas, de comunicação e recepção, além de lhe proporcionar a atuação num meio, até então, inacessível ao corpo nu. É mais um exemplo, como afirmado anteriormente, da antropomorfização do espaço – agora, galgamos por um ambiente praticamente invisível, de prótons, elétrons e ondas de energia, e o convertemos para os mais diversos fins, como, não menos notáveis que qualquer outro, o questionamento, decomposição e rearranjo da forma e sentido de nossas representações.


No ato de tradução, são conferidos signos a ambos os lados do processo, potencialmente gerando conceituações que, independente de emancipações ou critérios, são unidades teóricas historicamente construidas e intimamente dependentes do alcance dos sentidos do corpo. Desta forma, não seria espantoso se os fragmentos resgatados do jogo de luz e sombra com o vazio das intersecções entre os processos de criação formais – os vazios da tradução, pois tudo é tradução de signo para signo – redundassem sobre permutações de um único tema – os imaginários da imagem-corpo e seu meio. Enxergaríamos, pelas frestras entre os espelhos, mais reflexos e representações, ainda que outras, ou ao menos diferentes, das mesmas imagens-corpos que selecionamos projetar inicialmente, em tom de questionamento. E realizamos estas projeções através de suportes eletro-orgânicos das imagens, que retornam amalgamadas do que, até então, ficou no silêncio das formas fechadas, inintercomunicáveis da tradição. 

Portanto, os novos suportes técnicos, que apresentam a tradução de, e em, um novo meio de expressão, em seu caráter de indissociação histórica das técnicas e teorias que a antecedem, rompem a espaço-presencialidade imediata da imagem-corpo, rumo à presentificação de seu passado e relativização de seu espaço-tempo. E a imaterialidade destes objetos, conceitualmente reconfigurados à luz de sua própria condição, abre um novo horizonte de formas, nos mais diversos aspectos da experiência sensorial, desde reformatações dos princípios de público e privado, legalidade, relações sociais e de gênero, comparações entre espaços imateriais análogos aos da matéria, não-territórios, a arte... O status multipresencial das propriedades imateriais traz à tona as lógicas de compartilhamento e a reconfiguração da liberdade individual como parte da liberdade do outro, o indívíduo como parte do todo. E assim pensamos não apenas nas imagens-corpo individuais. As discussões não giram apenas em torno do Eu, mas de uma existência que pervade a coletividade, que reconhece a multiplicidade de colaborações e enfrentamentos.

Gustavo Rezende


O MINOTAURO
((Receita Clássica para gerar monstros))

Desde a Antiguidade Clássica chega até nós um singular método para produzir monstros. Basta fazer o seguinte: Pegue dois ou mais animais, da mesma espécie ou de espécies distintas, depois seccione estes animais em determinadas partes, e em seguida remonte-os trocando as partes, ou repetindo a mesma parte várias vezes no mesmo animal, e pronto, tem-se então um bestiário clássico. 

Para o pensamento clássico é monstruoso tudo aquilo que é híbrido, tudo o que é misto, tudo o que é composto. É monstruoso tudo o que desafia uma ordem pré-estabelecida, e identificada com a Razão. No método proposto, o monstro é identificado por sua irracional singularidade, por atentar contra uma Razão que a humanidade arroga a partir de si e projeta na natureza.

Boa parte dos monstros que povoam os mitos clássicos são feitos segundo esta receita. Há mesmo como separá-los em algumas categorias. Temos, por exemplo, os monstros policéfalos, como Cérbero, o magnífico mastim do Hades, com suas três cabeças, ou ainda a Hidra de Lerna com suas múltiplas cabeças de serpente. Nestes casos, as cabeças replicadas são idênticas, como uma cabeça original que é copiada muitas vezes. Um caso diferente é o da irmã da Hidra de Lerna, o monstro chamado Quimera, também filha de Tífon e Équidna. A Quimera é uma serpente gigantesca com duas cabeças, uma de cabra e outra de leão. Por ter cabeças assimétricas, oriundas de espécies distintas, a Quimera tem acentuada a sua monstruosidade. Quanto mais misturado, mais monstruoso.

Há também a categoria especialíssima de monstros onde o HUMANO entra na mistura. Os mitos clássicos também são pródigos neste tipo de seres semi-humanos. É fácil perceber que ao se acrescentar humanidade à composição do monstro, acrescenta-se o princípio da Razão. Por que possuem uma parte humana, estes monstros são, ou deveriam ser, em parte racionais. Vejamos os casos onde o monstro possui a cabeça humana. Nesta sub-categoria estão, por exemplo, o Centauro, o Sátiro, e a Sereia. Estes monstros, por possuírem cabeça humana, possuem igualmente um princípio racional. Mais do que isto, estes monstros possuem linguagem, e conseguem viver em comunidades. A parte animal destes seres, contudo, denuncia que sua razão é conturbada, ou antes, é deformada por afetos, vícios e comportamentos irracionais. Como diria Goya, o monstro surge onde a razão adormece. É a parte animal que justifica a agressividade dos centauros, a sensualidade dos sátiros, e a perfídia das sereias; ou ainda a arrogância da esfinge, que se apresenta como monstro lógico, quando realmente não o é. Assim, a irracionalidade da parte animal é usada para explicar a bestialidade da parte humana.

Mas há também os casos em que o monstro, apesar de possuir partes humanas, tem a cabeça de um animal irracional. A mais notória destas criaturas é o MINOTAURO, que tem um corpo humano coroado por uma cabeça de touro. Apesar de se parecer, em parte, com um homem, o minotauro, por ter cabeça de touro, não possui razão alguma. Sua natureza é unicamente a da fera. Não sendo racional, ele não possui vícios. Sua monstruosidade lhe é totalmente adequada. O minotauro é só, isolado. Ao contrário de outros monstros, ele não suporta a alteridade. Ele se alimenta de carne jovem. Sua casa é um labirinto, e ali ele vaga sem rumo, à espera de sua presa. O minotauro não tem linguagem, não tem interface, não pondera, não negocia, não tem qualquer tipo de paixão; ele apenas devora, exercendo naturalmente sua vocação de predador.

Aquela antiga receita ainda é eficaz no presente. Antropólogos, biólogos e historiadores já gastaram muita lauda antiga para nos contar como, desde que Zeus transformou-se em touro para transar com alguma mortal, sua descendência habita o nosso planeta-labirinto. São seres metade homem, metade touro, cuja parte fera justifica a ferocidade da parte homem. Uma multidão de monstros irracionais, bilhões de minotauros, que neste momento aguardam e anseiam por devorar a vítima mais próxima.

VIDA LONGA À NOSSA RAÇA!



Grupo EmpreZa

segunda-feira, 20 de maio de 2013

[verbo] [predicado]


tudo quanto ando
mando e desmando
quando te olho
invento
ao vento
acabando 
ao relento
quanto mais avanço
alcanço 
mas me canso
sozinho na sombra
que me assombra
contendo ainda
lábios cortados
aos dentes
penitentes
incoerentes
lágrimas no afluente
eu prefiro me ver
velado
calado
no solo
a sete palmos em seu colo "sujeito" "verbo" "predicado" no presente no passado.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Haiku

Da grama fito
O homem de um jardim
Podar suspiros

Gustavo Rezende

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P.ost S.criptum
Em tese, é um haiku, estilo japonês de poema, mas na verdade não é, pois a métrica do haiku utiliza  elementos gramaticais exclusivos da lingua japonesa. Convencionou-se um paralelo entre elas e a gramática ocidental, como o número 5/7/5 de sílabas por verso, mas na real, é puro migué.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Além da sombra cotidiana

Tuas mãos transbordando
as dela, contendo e liberando-as

Incandescentes de carícias úmidas
que ainda brincam em sua boca

Teus dedos saltitam em busca
do que a sombra cotidiana oculta

Seus segredos que convidam
e represam a maré que o fogo clama

Enquanto tu és voluntário ao
suor alheio em que perde os teus lábios

E a tua língua a fere e mapea,
aprofundando-se em seus tesouros

Ela escava a pele em teu peito
até minar de ti a cor rubra do desejo

E a sinfonia orgástica em suas
feições enfim o despe de tuas dores

 Gustavo Rezende

sábado, 6 de outubro de 2012

Reticências

Ainda que confinem meus olhos
às fórmulas herméticas da carne;
    e minha alma seja
    ungida em sangue

Ainda que o vazio de tantas vozes
sacrifique o meu julgamento;
    e meus lábios sejam
    frígidos feito o mármore

Ainda que, intimando a escuridão,
eu estremeça e sempre chore;
    e a ameaça da memória
    me ultime e então destrua

Ainda que nas dores de meu corpo
os sonhos e a matéria se confundam;
    e o fracasso seja a única
     promessa de repouso

Ainda que eu fortaleça minhas mãos
em proteção a absolutamente nada;
    e minhas asas quebradas
    sejam sempre ausentes

Ainda que eu lhes entregue as lembranças
de todos os meus crimes e histórias;
    e permita o mundo
    esvaziar-me da realidade

Ainda que os sussuros do Portão Negro
finalmente vençam a minha lógica;
    e em meu túmulo não hajam
    flores, mas sim correntes

Gustavo Rezende