sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Artigo - A espada samurai

Instrumento máximo do caminho samurai, o Katana simboliza as virtudes e preceitos morais de seu código de conduta, o Bushido, ou o "Caminho do Guerreiro". Os samurais jamais eram vistos em público sem suas espadas, que representavam as obrigações e direitos da classe com seus senhores, sua família e súditos.

O Katana, nome que identifica a espada como objeto, era chamada de Shinken a partir do momento que era associada a um determinado samurai. Este nome conferia à lâmina grandeza espiritual, pois os guerreiros do antigo japão acreditavam que suas espadas portavam parte de suas próprias almas.

Isto explica o apreço e cuidado dos samurais com a segurança e manutenção de suas armas. Também contextualiza o rigor e disciplina que marca o treinamento dos diversos estilos de esgrima desenvolvidos no Japão, chamados coletivamente de Kenjutsu, ou a "Arte da Espada". A prática da esgrima samurai era intimamente ligada não só ao aprimoramento de capacidades técnicas, mas também ao condicionamento mental e o refinamento do espírito.

Não surpreende, portanto, que essa mentalidade tenha proporcionado o florescimento de uma das classes de guerreiros mais temerárias já vistas na história. A qualidade da espada como alma do samurai e a crença espiritual que tal pensamento implica, em conjunto à função terrena do Katana, que é, resumida e honestamente, a de tirar vidas, inferiu à cultura samurai profundo respeito e consciência da morte. Para estes guerreiros, morrer pela espada era o mais honrado destino. A coragem e destemor com que adentravam em seus campos de batalha era permeada por grande lucidez mental e tranquilidade espiritual.

Os métodos de forja do Katana igualmente acompanharam o refinamento cultural e técnico de seus estilos de Kenjutsu. Em verdade, as escolas e estilos de forja e esgrima influenciaram-se mutuamente, uma adequando-se às necessidades e descobertas da outra.

A manufatura do Katana é um trabalho árduo e espirituoso, realizado por homens que são considerados verdadeiros sacerdotes da espada, os Katana Kaji. Seu ofício, mais que produzir peças de imensa beleza e letalidade, é o de imbuir na lâmina, a cada martelada, a força do Bushido, tornando-a leve, rápida, resistente e o reflexo do espírito de seu portador.

Escolas de forja

A forja do Katana é um processo bastante peculiar. O pedaço de metal incandescente que irá tornar-se a espada é martelado, manualmente, até assumir um formato longilíneo. É então dobrado de uma extremidade a outra e martelado novamente, ao ponto de alongar-se mais uma vez. Este trabalho de dobrar e fundir o metal é repetido pelo forjador milhares de vezes, num período que pode estender-se por meses.

O processo homogeniza a distribuição do carbono na peça e funde o metal em milhares de camadas. O altíssimo número de camadas produzidas pelas dobras lhe dão sua consistência e um poder de corte inigualável. Verdadeira obra prima das armas, o Katana, nas mãos de peritos em seu manuseio, é conhecido por cortar até mesmo aço.

Mesmo com muitos elementos em comum, os Katana não são todos iguais. Diversas tradições da forja japonesa firmaram-se através dos séculos, cada uma com suas peculiaridades e contribuições. Quatro escolas destacam-se historicamente, identificando as características de cada época e inspirando inúmeras outras formas e derivações.

O estilo Yamato é a escola mais antiga, conhecida por lâminas mais pontiagudas e de pouca curvatura. Este formato demonstra a transição da ênfase em golpes de estocada das espadas anteriores para os golpes de corte.

A partir do modelo Yamato desenvolveu-se a escola Yamashiro, que introduziu o formato mais comum às espadas até hoje, o Shinogi Zukuri, onde o cume da espada é mais alto, tornando a linha de corte e têmpera maiores e mais evidenciadas.

Em função da invasão dos mongóis no Japão, durante o século XIII, surgiu a escola Bizen. Suas espadas eram maiores e mais resistentes que as anteriores, além de serem mais curvas para o melhor uso montado a cavalo. A ponta das lâminas, chamado Kisaki, tornou-se mais fina e afiada com esse estilo, devido à necessidade de maior capacidade de perfuração contra as armaduras de couro mongóis.

A escola Echizen, fundada pelo shogunato Tokugawa, produziu diversas espadas importantes. Curiosamente, o estilo sofreu considerável influência da metalurgia ocidental, em especial da Espanha e países do Oriente Médio. Através do contato com estrangeiros, os forjadores japoneses alcançaram maiores níveis de rigidez e densidade do aço.


Gustavo Rezende
Shoden do Aizu Muso Ryu - Mysawa Ha

La dérive


Ontem eu descobri que a revolução de 68 não vingou quando, conversando com monólogos, percebi que poetas vendem suas almas para meninas bobas e jovens byronicos. Bem, das formas as quais eu já conhecia esse fato, todas eram ainda  muito ligadas à reflexão poética. Nunca havia me atentado para tanto em todo seu potencial idiótico. Meditando, consequentemente, no fracasso dos Situacionistas franceses, me propuz a realizar um de seus experimentos mais básicos. Andar sem destino na cidade, la dérive, como eles diziam, me deixando ser guiado pelos corredores sinuosos da peste arquitetônica goiana.

Não aconteceu exatamente como os Situacionistas idealizaram... Eu sabia muito bem aonde ia, só não estava certo de como chegar lá. Mas meu senso de direção me entregou ao meu destino, por mais que eu não conhecesse nada dos caminhos em que passei. Eu poderia ter andado errante, terminando por ser assaltado e morto num bueiro qualquer. Juro que tentei, mas em algum momento, a vontade coletiva sobrepujou a individual, ou o contrário. Será se foi isso o que aconteceu aos Situacionistas de 68? Trairam seu discurso quando flagrados, como eu fui, pelo bom senso, que os impediu de vagar indefesos pela experiência urbana incontrolável? Terminaram eles entregues ao desfecho fatal das utopias de total liberdade – nós cegos, camisas fiveladas e o fracasso?

No entanto, por um breve momento, eu me perdi naquelas sargetas mascaradas de ruas. Num instante sem me preocupar com onde eu iria parar, apenas fui andando, vagando, murmurando um sorriso gelado, cínico, velado em minha face. Afinal, imagino que para um libertino sessentista parisiense, la dérive deve ser quase um orgasmo em público, escorrendo livremente por uma das mais belas e antigas cidades européias. Mas eu, hah, vivo em Goiânia, cidade que não nasceu sozinha,  que foi feita, a pronta entrega, consolo dos desabrigados, onde ainda tenho que me preocupar com beijos obscenos. Casebres toscos, meio marrons, meio verdes, sujeira, mijo de gente e o ar embrutecido pela catinga de suor das pessoas que saem dos ônibus às seis da tarde, definitivamente, não me deixam com uma bela ereção.

E delirando nisso, comecei a rir no meio da rua, incontrolavelmente. Rir, como um palhaço profano, frente a uma platéia de boteco, sem rosto, formada de boêmios franceses cretinos e ilegítimos, todos bêbados já ao fim da tarde, numa quinta feira quente e fedida. Nesse momento, notei que não foi ali, naquele espetáculo anônimo, com aquele público sinonímico, que me coroei um pleno Palhaço Branco. Se algum dia eu resisti, perdi a luta há quanto tempo? Eu não me lembro. Tudo que sei é que hoje, eu sou o Branco, palhaço seco, escarnecedor e cínico. Palhaço Branco, palhaço mau, o dono do circo, racional, pragmático, desalmado. Engraçado. Falho. Real.

Enfim, chutando os sapatos, fingidamente sem direção, cheguei ao meu destino. E quem diria, o ponto final daquele dia era um ambiente sacro, de cardealíssimo reconhecimento pontifício! Bem, até onde eu fui, ao menos, era impuramente sacro, um prédio com andares e andares de heresias e livros, ou, para alguns, só heresias. Mas eu não fui ver estes livros, coitados, que ficam lá, choramingando sozinhos a inevitabilidade do próximo pogrom, quando cumprirão sua sina, nas mãos de seus donos – mofar por abandono, e então, serem queimados.

Não, fui lá ver cemitérios. E meu rosto abriu um sorriso ainda mais agudo e afiado, os músculos faciais numa tensão excruciante, enquanto eu era tragado por soporíferos túmulos franceses. Todos eles, franceses. O cemitério de Montmartre ao norte, o Montparssane ao sul e o Passy no meio de tudo, costurados pelo som de Cafe del Mar que, para não tirar lágrimas dos meus olhos, arrancou-me um pouco de sangue. 

Belos cemitérios. Mórbidas cadeiras, decadentes em seus mausoléus, decréptas, tão insignificantes frente o resoluto mármore. Lindos anjos - que não me atacaram, muito grato. Os Situacionistas fariam grande sucesso ali, entre os mortos, penso eu. Vagar por cemitérios antecipa algumas das últimas realizações sobre a vida que costumamos ter. É no fim dela, mediocremente, que a maioria de nós, vermes sob o firmamento e espaço sideral, percebemos que devíamos ter vivido melhor. Às vezes, devíamos até ter vivido mais.

Estranhamente, foi nesse ponto, então, quando não acreditava ser mais possível evitar as navalhas dos anjos do santíssimo, em que ouvi o som de fogueiras, violinos distantes e cantadas de puteiro.  Ainda afetado pela onda do meu Situacionismo fajuto e perverso, segui os ecos virais até eles me largarem em qualquer tumor urbano, de onde vinha a canção de ninar casais lascivos.

Sim, eram mesmo fogueiras e violinos. Mas ali não era puteiro, era sim um circo! Uma ciranda orgiástica de faunos, transparentes em seus desejos magníficos e malícia infantil! Puros em seus impulsos inteiros, completos, sem despojos, sem fragmentos, um espetáculo pagão! E quando deveria me sentir mais em casa do que em qualquer outro lugar desta cidade enervante, meu antitético sorriso murchou. Meus tantos olhos perderam a zombaria com que agrido os dias.

Riso? Mas que riso? Que diferença fazem todas as putas que essa cidade tem? De que importa toda a imensa platéia descarada, com seus olhos de niquel e dedos de barro, para encher meu teatro e meus bolsos? E você? Você, que tanto estudou, que leu terrivelmente, que sobre tudo sabe, de cor e salteado, que é distinto, culto e bem vestido, que cresceu admirando a si mesmo, o que me vale você, sem meu Palhaço Augusto? Sem minha alma, que vive apenas de coisas do espírito, no fundo do meu copo, transfigurada. Meu Palhaço Augusto, que não se mistura a esta roda de sátiros e duendes notívagos. Que vive da paixão, enquanto eu, Branco, vivo dos números, que exulta na criação, e eu, concateno fórmulas, que é anarquia e ardentemente luta, já eu, desacredito a revolução.

Pra ter você no meu picadeiro, pra te por no teu lugar, de palhaço meu, quê que eu faço? Pois tudo o que realmente importa, Palhaço Augusto, não interessa a você! Te prometo um inesquecível espetáculo, te prometo fama, sucesso, te prometo toda a matéria disponível neste mundo! Em nome do diabo, por que é que você não vem, o que é que você tem, o que é que você quer?

Ah, mas eu vou descobrir, ah, se vou! Te prepara, pois essa cidade é platéia lotada, embonecada, porca e ingrata, mas que aplaude e aguarda a tua estréia! Te prepara, palhacinho, pois na dérive eu ainda te pego e arrasto para o meu palco, onde, desde já, eu anuncio tua entrada, na Balada de um Palhaço, da forma mais Branca, popular e repetente:

Hoje teve espetáculo?
“Teve, sim senhor!”
Hoje teve marmelada?
“Teve, sim senhor!”
Hoje teve farofada?
“Teve, sim senhor!”
E o palhaço o que é?
“É ladrão de mulher!”


Gustavo Rezende

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P.ost S.criptum
Outro texto antigo, na falta de novidades. Semana do Bon Odori, treinando muito para a celebração dos mortos (que aliás, começa hoje).

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Senão

Há anos não me sentia daquele jeito, mas já acabou. As pernas tremiam, no coração, o sangue parecia ter vida própria, pois o sentia dançar, os pensamentos todos nela, só nela. Às vezes, flagrava a mim mesmo com lágrimas nos olhos. Vocês sabem do que se trata, a emoção é muito forte.

Saía da casa de um amigo às 8h, após uma noite de bebedeira com chopp gratuito, petiscos e salgadinhos em miniatura. Era uma formatura de um companheiro de faculdade que nem daqui é, quase provinciano. Nessa noite, bebi, conversei e me diverti; cheguei até a jogar cartas, coisa que não me tem apreço. Não podia imaginar o que me esperava nessa manhã de quinta-feira, mas os velhos sentimentos sempre voltam.

A casa desse amigo era ao lado do local da festa, porém, a mesma terminou mais cedo do que esperávamos. Fomos a um bar, depois de uma boa caminhada trocando as pernas e marcando território lá e cá. Alguns reclamam desse atentado ao pudor e à higiene, mas na hora de lutar por banheiros públicos, esses imbecis, todos eles, somem.

No bar, pedimos uma garrafa de cerveja gelada e coletamos alguns cigarros da caixa para que eles acompanhassem a famosa loira. A conversa fluía em concordância sobre o bom e velho comunismo. Levantei-me e fui ao banheiro, normal depois de tantos copos de álcool. Lá um proxeneta me chamou a atenção. Perguntava se me conhecia de algum lugar, pois era “roqueiro”. O sujeito me encheu o saco durante a mijada a dizer que seu pai era o melhor baixista da cidade e me mostrou sua identidade que continha uma homenagem lusa e pobre ao Jimi Hendrix. O nome do infeliz era Jimi Peter.

Mais além, voltei para mesa e retomamos a conversa. Sentíamos-nos embriagados e sem vontade de beber mais. Pedimos copos de plástico para que levássemos a cerveja restante. Com eles, subimos a avenida em direção às camas, onde dormimos profundamente até às 8h. Não falo nada. O sujeito tinha que trabalhar, porém ninguém, nem o mais pobre ou burro e feio do planeta merece acordar cedo. Entretanto, conformamo-nos e disparamos à rua.

Nos separamos e eu fui para o ponto de ônibus. A condução não demorou e estava vazia, isso nunca acontece, talvez este tenha sido um sinal. Meu itinerário incluía dois terminais e três ônibus, porém uma só viagem para gastar. Desci do baú, como o ônibus é chamado pelos estudantes e logo entrei em outro, bem mais cheio e fui em pé.

O segundo terminal demorou bem mais para chegar, como se todo aparato de concreto, asfalto e ferros que caminhasse até mim. Lá é que começaram as estranhas sensações conhecidas por todos os indivíduos realizados. Mãos suavam e era como eu pudesse sentir o vento e o sol de um modo diferente enquanto o suor era transformado em sebo por sua ação. Momentos de pseudo-alívio, quase mágicos, iam e vinham, mas eu tinha que encontrá-la, antes que fosse tarde demais.

No ônibus, já a caminho de casa, me deu certo desespero, achei que não ia dar tempo; confiei, não tinha outro jeito. Consegui me sentar, fui na janela, admirando o caminho enquanto pensava. Quanto mais perto eu me aproximava mais insuportável era a sensação de perda e resolvi, depois de descer, me apressar. As pernas pareciam não responder aos meus comandos, só aceleravam, o suor escorria pela face, cabelos se arrepiavam ao sopro rebelde dos ventos; o caminho fazia-se mais longo que parecia.

Quase, foi por pouco. Com maestria, velocidade e ferocidade abri o portão defeituoso com uma só mão e tranquei-o. Invadi a casa, quase que arrombando a porta e a vi de longe, cada vez mais perto. Corri para o seu encontro, ela estava lá branca e fria, mas pensei: foda-se, vou sentar nela mesmo assim, senão cago na roupa. Devia estar sentindo a dor que as mulheres sentem no parto, sentia ela se mexer e me chutar, como se fosse criar mãos e por se fora do canal de uma vez por todas. Cantos de choro recém-nascido ecoavam por todo o recinto e eu prostrado pairava morto sobre o trono. Deu até fome.

Hugo Oliveira


domingo, 15 de agosto de 2010

Artesanato

O artesão e sua arte - mecânicas
indivisíveis os confundem

Um só conjunto de engrenagens e cálculos,
fluídos e vapores cardíacos

Ele a monta peça por peça, a reproduz ,
assexuadamente. Uma filha, uma amante

Regula suas mãos, seus olhos e paixões
em sistemas muito além do binário

Decidindo-se a cada etapa
em quais variáveis quânticas se inspirar

De sua oficina há semanas não separa-se,
modelando incansavelmente a seios delicados

Desenhos, fórmulas e balbucios nos papéis
formam, nas paredes, um labirinto feito dela

Seu corpo, sua mente, cobiçados
pelos mais loucos sonhos. Tudo mais é obsoleto

O artesão, emudecido, não descansa
até materializar todo seu delírio febril

Hoje inanimada, amanhã ela viverá,
em latex, silício, ligas leves e aço

E ela, com olhos cinzas fita, já lúcida, apenas inerte,
a luz do sol que esgueira-se pela janela semi-aberta

Espera os últimos toques de seu criador,
seu deus de ferramentas, relógios e suor

Pequena divindade pálida e aleijada, 
adoecida pelo fulgor de feixes dionisíacos

Afinal, tudo ali já é visto - oficina escura,
artesão tolo  e paixões confessas por ideias e objetos

E ela, ideal a qualquer gênio artesanal
só enxerga horizontes de glórias e fantasias

Cumprirá a promessa escrita
nas  linhas de seu código pagão -

Realizar o artesão com seu desejo obsessor - 
vai sorrir e sim, para viver, irá partir
 

Gustavo Rezende
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P.ost S.criptum
Texto antigo. Postado na versão anterior do Mundos que Ardem, ano passado... mas com algumas (substanciais) alterações.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Lingua

Minh`alma é linguagem, é conceito

amplo, não é objeto, é sujeito

É prosa, é verso, é sofejo

Vibra até quebrar-se em superlativos

Que conjuntarem-se vão, copulativos

ao alcançarem interjeições de indulgência –

Inteligíveis não importam os morfemas

Dispensam qualquer tradução

Gustavo Rezende

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Papel e tinta

Estes feitos letais, de papel e lânguida tinta
Exaltam glórias pálidas e meramente temporais
Em trechos de heroísmo recicláveis e perecíveis
Entre grandezas findadas no diluir de passagens

Sacrifico tais paixões à matéria e outras febres
Numa aposta derisivel por eterna fisicalidade
Mas sepultar lágrimas sujas é tudo o que medro
Juntas a Deuses antigos, debeladas, elas os guardam

E o tal papel prolifera-se sobre as minhas infirmezas
Retrato falado tão moribundo quanto o coração de todos
Não menos perdido entre as linhas que qualquer malungo

Ah, tinta odiosa! cor sangue de diabos azuis e infiéis
Tua grafia me trai, coalescendo todas minhas dubiedades
Em contextos que se esvaem, unitários e restringentes

Gustavo Rezende 

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Chuva seca

Sinto o ar deste ambiente, seco e de gosto estranho. Um gosto vazio, sem sabor e desestimulante. Há poucos passos embebi a boca com água, mas meus lábios já estão ressecados. Tenho a sensação de uma agulha áspera em minha garganta, me provocando tosse. Os fones de ouvido, canonicamente pressionando minha cabeça, não entretem meus sentidos com música. O que ouço é uma memória, uma gravação digital dos tempos de chuva, saudoso dos trovões e rosnar constante das tempestades.

Deitado a dezenas de metros da terra, sobre panos macios, não posso evitar abrir os meus olhos. Vejo a janela aberta e através dela avisto postes e faróis, um céu sem nuvens e estrelas. Uma visão transparente, desiludida de qualquer chuva ou poesia. Fecho os olhos, agonizante. Ouço gotas d´agua ressonarem ao cairem das calhas, e me cerco com lembranças de uma paisagem opaca, onde as luzes da cidade são sufocadas pela torrente que precipita-se de nuvens escuras. Uma película aquosa, de água nem turva ou cristalina.

Na sequidão, os olhos ardem. O vento nem mesmo sopra. A brisa da madrugada não é  tímida, está apenas ausente neste andar semi deserto. Só estou eu e o clima árido, que entalha em minha mão rachaduras da pele. Após diminuir brevemente seu volume, com fôlego renovado a chuva intensifica-se, reverberando longos estrondos. Mas sem a luz dos relâmpagos,  não há como deduzir o quão próxima a tempestade está de seu término. Assim pensando, rio em silêncio de minhas crendices ou das aulas de Ciências. Um riso triste e consciente de que a chuva durará, exata e pontualmente, uma única hora.

Levanto-me e, sobre os dois pés, encontro o limite de meu truque. Não há água nem trovões em lugar algum. É tudo meramente som, um blefe vazio, como a música dentro de um disco, sem substância nem instrumentos, preso à linha e o anzol. Já a sede é real, coça, incomoda os meus dentes. Retiro os fones e enrolo seu fio. Estou preparado para o choque com o silêncio, mas o que realmente encontro é ainda mais opressor - o ruído. Após alguns passos, embebo novamente os meus lábios e então retorno, a passos idênticos. Corto toda a corrente elétrica e elimino sua estridência. Fingindo sono me deito e, sem gravações, durmo.

Gustavo Rezende