domingo, 26 de setembro de 2010

Tedioso

Entre as fissuras do sonho,
sobrevivo. Estatuesco e gelado,
minha forma inerte te esconde.

Na paciência me confino.
Cercado da esperança, sufoco
numa indiferença impostora. Ôca.

E o cotidiano me agride –
reduzo esta vida a um poema,
escrito nas cicatrizes do meu corpo.

Gustavo Rezende

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Perfume na boca

Enxergo os vapores erguerem-se acima da cidade, metamorfoseando-se em nuvens cinzas de rancor. Haverá chuva em breve, sorridente e ácida. As folhas secas a esperam, ávidas pela água empestada do monóxido de carbono sublimado das ruas e queimadas. Mas a precipitação ainda está distante, é apenas um borrão inarticulado no céu, mascarada pelos espectros que ascendem das chamas nos bosques. O ar tórrido em verdade supera-se, árido ao tocar meu corpo áspero, envolvendo meus humores em uma só onda de desertificação.

Numa intersecção arterial da malha, vigio a incessante combustão das luzes insones que varam a noite. Com os olhos abertos e vidrados no nada, penso ler promessas do retorno de algo que me humanize, escritas num lembrete atmosférico que paira, sem citar datas nem nomes. Vejo minhas pálpebras se fecharem na imagem que projeto pela superfície vítrea da janela. A mensagem extraviada é o indício de que ainda existo, por mais que distante.

E este breve, imperceptível instante em que falho minha vigília, é mais que o necessário para sonhos e terrores abrasadores escaparem de seu confinamento. Já tarde da noite, brindo à letal exaustão que trai todas as sentinelas –  permito-me um bocejo ao sentir as intimações do sono, saboreando em minha boca o ar saturado de um inesperado perfume de cabelos úmidos. Uma fragrância deliciosamente tóxica e impossível; no cômodo fechado, nada mais além de mim, seco e sem nem mesmo cabelos para justificar tais impressões inebriantes.

Sem poder retraça-las a um Que, a um Quem ou um Onde, enfim, desarmado da razão, me rendo. Fecho os olhos e navego pela sensação, uma alucinação não exatamente oufativa nem palatável, mas de um sentido ambivalente, desproporcional e, conjeturo gravemente, evocado do que jaz além de minha consciência.

Me rendo às Fadas da noite! vocifero em minha mente. Minhas musas sem inspiração, insossas e torpes! Deitam-se comigo em meu leito sempre desperto, invisíveis e à pele crua, soprando em meus ouvidos o sabor de seus tormentos e odores. Todas elas úmidas, mas não da água de banhos e teu cheiro doce não vem de perfumes caros... Estão molhadas do seu próprio suor – excrescências que exalam puro glamour - transpirado neste calor de praias ímpias nas orlas do inferno.

Me lembro de um encantamento para o povo louro da feira, o gentil povo justo, o povo bom e honesto, mas não ouso dize-lo. Na verdade, além das noites de sono perdidas, pouco tenho a temer dos feéricos ardis de Lorelei ou sereias, pixies ou elfos, devas ou níveas yokai. Mas não posso dizer o mesmo dos demônios que as cobiçam. Concorrência profissional. E pelos fogos de artifício e desastres da temporada, eles estão curtindo férias. Aqui por perto.

Sinto o perfume doce em minha boca. Me delicio e fico em silêncio.

Gustavo Rezende