sábado, 30 de outubro de 2010

Rito do fogo

Na dança febril da fogueira
elas são as chamas que ardem

Exultantes na incerteza
de suas memórias e fagulhas

Impregnadas do aroma de sexo
e flores selvagens

São linguas bruxuleantes
que olhos cortejam

Luxuriosos dedos
que arranham e queimam

São o fogo que ascende para
afundar-se num sorriso ígneo

A labareda a que os dançadores
suplicam um beijo escaldante

Que em tuas bocas derrama
o fogo grego esquecido em Bizâncio

Para que se engasguem e afoguem
e em êxtase morram

Consumidos pela pira
que não para jamais de queimar

Mas mesmo suas cinzas
continuarão a dançar, em espiral

Enquanto o vento sussurrar
redemoinhos de desejo venal

E o lamento sepulcral
for sulfuroso e inflamado de paixão

Pois o que resta são lembranças
e pegadas nas cinzas do chão

E um amor que de repente arde
vai de vela a fogueira a incêndio e desastre

Gustavo Rezende

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P.ost S.criptum
Outro poema antigo, da velha guarda.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Algo sobre a cidade

Resumindo.
A única linguagem da cidade é a agonia. Ela se comunica através de um trepidar incessante e espasmódico, e em sua ruína eu compreeendo seus sinais. As veias intumescem e entranhas entopem-se até o colapso, conforme impérios caem e o fogo purifica com poder atômico, divino. Os recursos da civilização esvaem-se e os tecidos da malha urbana definham, mas nunca deixando de cumprir, mesmo que necroticamente, as suas funções. A metrópole desaba muito mais que revitaliza-se e, ainda assim, desenfreadamente ela cresce, alimentada em dieta obscena de óbtos e suas próprias toneladas de excrementos.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Horda

Os gritos da Estrutura erguem-se, metálicos
A cantata arrítmica liberta a Horda
Obliterada de um espírito – e seus desejos
Ceifados da carne e seus direitos
Na aglomeração ela é Identidade , industrial
Entidade pletora de não pessoas
Em movimento uniforme e desproposital
A atividade servil lhe dá forma
Acomodada ela uiva, estagnada em revolta
Seu latido, temeroso e insincero
Um ladrido último no funeral de sua opinião
Pontual, labora na própria forca
O silêncio reina, legítimo sobre a multidão
E os títulos da dor soam hereditários
Congenitamente perpetuados
Integrados à exclusão

Gustavo Rezende

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P.ost S.criptum
Trabalhando em alguns textos. Não devo postá-los ainda, então vai um antigo, só para não paralisar completamente. E a intenção deste poema não é ofender os jogadores de Warcraft. Desculpe qualquer coincidência.