domingo, 27 de novembro de 2011

vaticínio

Que devaneios este povo tem de sonhar
Para que suas cicatrizes emerjam, rubras
De um sono profundo até o despertar
 
gustavo rezende

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

E se

Se eu pudesse escrever
E soubesse um poema
Se eu fosse um poeta
Eu poetizaria você

Se eu conhecesse as formas
E respeitasse as normas
Se eu possuisse métrica
Eu a descreveria

E se eu sonhasse e esquecesse mundos
Que inspirassem vidas e túmulos
Eu sonharia contigo

E eu me faria terra para cultiva-la
Daria ao vento o seu perfume
Mas apenas se

Gustavo Rezende

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P.ost S.criptum
Do começo desse ano, eu acho. Solilóquios.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Véu

Em face ao espelho, desmontei-me em figuras
Geométrico, um mozaico me desenhei
à quebradiça imagem dos cacos
Em círculos, o ciclo esperei
Emoldurado estilhaço

De foscos olhares enluarados, abriguei-me
sob fios sedosos de tingimentos sutis
Ah, tão fino o estrangeiro tecido
que alva tez eu fitei através
deste  véu esmaecido

Em minhas torres mais altas, cercado eu dancei
tal pálida rainha em um tabuleiro xadrez
num baile entre sonhos adversários
No vitríolo cansado, a decantei
em todas as cores invictas

Gustavo Rezende

terça-feira, 29 de março de 2011

Reflexo urbano

Desnudo a cidade em que meus pés caminham
Lançando-lhe um olhar ressequido e desvirtuado
Suas ruínas entranhadas lascivamente me contam
que as raízes da cidade igualmente andam em mim

E as imagens obradas nos muros ingênuos exibem
a composição inconsciente de seus fracassos
Me enxergo, confuso junto às ruas sem projeto
Desordenado, com elas prolifero-me, sem saída 

A cidade engole a si mesma, voraz em sua reforma
do concreto e da carne, pela depedração decorada
Uma simbiose de relações e acidentes de trabalho 

O que resta no peito, devoro, canibal em minha revolta
No entulho refletido em minhas edificações, me espelho
e o elimino, vazio como aquilo que reflete-se em mim

Gustavo Rezende

quinta-feira, 3 de março de 2011

Fugitivos

Andrajos rotos com que se vestem
Os peitos cobertos por trapos sujos –
Poemas úmidos, que tolamente escondem-se
Costurados à círculos de esforço inútil
Por linha à margem da desistência
As agulhas os ferem, por tão pouco,
Com persistência mecânica, perfuram
Os pulsos esfolados, anônimos e defuntos

Contaminados por infecções intra-uterinas
Largados sós, exultantes nas feridas do parto
Se entregam à aliança de seus poetas jurados
Autores, bastardos, desertores e fugitivos
Sôfregos por fingir vida e sustança
Mas, preenchidos por dioramas e espaços vazios
Aberrantes, deformados na alma e malditos
À legião retornam da fuga por campos elísios

Gustavo Rezende

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Glutonia

O paladar possessor destes
juramentos e laços quebrados
Os absolva, absorva ou condene
num só julgamento gástrico
Das dualidades, as divisões
devore, se não as enxerga

Receita ímpia pregada na cruz:
Faça-te à imagem de Ídolos glutões,
insaciáveis em seus planos supernais
Seja carne, feze ou espírito,
a tudo, ingira. Santifique a fome
radicando-se na devassidão

Gustavo Rezende

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Cabeça de Sapo (1ª Parte)

Durante as horas mais escuras da noite, em quartos fechados e pagos por uma hora, seu nome era Laila. Nome da filha que sonhava um dia ter. Mas já a algum tempo, a palavra havia perdido a sonoridade doce que sua pronúncia produzia em seus ouvidos. Laila não seria mais o bebê que desejou parir de seu ventre, não faria mais seu aniversário com bolo, balões e canções infantis. Não cresceria para tornar-se uma garota bela, não seriam mais as melhores amigas, seu bebê não iria um dia conhecer o amor e a vida. Não, Laila tomou o nome da criança para si mesma, o roubou de seus sonhos e alegrias. O tranformou numa aberração de abusos e ânsia venal, moldando nos hematomas e escariações da própria carne a sua identidade. Erguida de ilusões inocentes, Laila tornou-se real, viva nas cicatrizes de seu corpo.

Mas durante a luz do dia, após o sono matinal, ela despertava para o anonimato da multidão. Com um outro nome qualquer, roupas largas e sem poder de provocação, a peruca abandonada expondo seus cabelos nus ao Sol, ela não era ninguém. Em qualquer outro de seus dias ociosos, Laila iria ao pequeno fogão da kitnet alugada, após acordar, e esquentaria as sobras de refeições passadas, ou o que mais encontrasse na geladeira. Talvez saisse em busca de congelados e pratos rápidos, caso não houvesse nada. Jamais cozinhava, apesar de o saber fazer muito bem. Dos elementos básicos da refeição às gulhoseimas mais elaboradas, Laila tinha, escondida em sua memória, uma suculenta lista de experimentos e receitas próprias. Mas teias de aranha formavam-se entre a parede e o botijão de gás, conservado pelo desuso.

Já aquela manhã, ela acordou horas antes do meio dia, só em seu apartamento, levando a mão à boca e sentindo seu estômago contrair-se violentamente. Levantou-se, um pouco tonta, a passos rápidos rumo ao banheiro apertado, esquivando-se do enorme puff vermelho no meio da sala. Com as pernas flexionadas e o rosto quase dentro da pia, mechas loiras de seus cabelos castanhos eram levados pela água que escorria da torneira, encontrando-se no ralo e o obstruindo. Após um minuto, certificou-se de que não iria vomitar, mas sua boca estava inundada do gosto râncido de bile. Respirou fundo, estancando seu cabelo para fora da água, e cuspiu rumo à pia o refluxo asqueroso, de cor e cheiro aversivo.  Virou o rosto de lado, aumentado o jato da torneira. Limpou a boca com um bochecho e escovou os dentes. 

Fosse outro dia, com algo de comer em mãos, a garota deixaria seu corpo afundar-se no grande puff vermelho e ligaria a TV sobre a mesa de canto, mas sem dar-lhe muita atenção. Puxaria para si a grande cesta deixada em algum canto por ali perto, transbordando revistas de variedades, moda e curiosidades científicas, romances de bancas de revista, e continuaria com suas diversas leituras. Mas a maior parte de seus preciosos momentos de distração era dedicado aos quadrinhos. Não podendo celebrar lembranças de muitos amores, declarou  paixão por super heróis e suas virtudes imaginárias, seus dilemas comerciais e conflitos derivativos. Comprava quantas revistas podia e tentava sempre manter algumas novas à mão, mas muitas vezes contentava-se em ler novamente os velhos títulos de seus heróis favoritos, alimentando com traços idílicos o seu coração, repousado no deserto do real.

Porém, desta vez, depois dos dentes escovados, ela entrou para o box do banheiro e , sem preocupar-se em fechar quaisquer portas ou janelas, despiu-se. Abriu o fluxo da ducha e lá ficou, a água quente escorrendo do alto da cabeça até seus pés, sobre o azulejo frio. As mãos abraçadas aos cotovelos, ela não auxiliava a água a espalhar-se por seus cabelos e o resto do corpo. Deixou o jato d´agua fazer sozinho o seu caminho, as madeixas umidecendo-se  lentamente, mantendo os braços cruzados sobre o abdomem e a cabeça baixa. Recostado na parede oposta ao banheiro,  os espelhos nas portas do armário marrom refletiam seu corpo nú através do apartamento.

Não demorou muito para a mulher presa na imagem enxergar-se, em meio ao vapor que erguia-se da água escaldante do chuveiro, flagrando as manchas vermelhas e roxas distribuidas pelo seu corpo arqueado. Ela, que tremia não de frio, mas pelos espasmos convulsivos de dor intermitente, dirigia um olhar inundado aos objetos em seu banheiro – os frutos de seu trabalho, a recompensa pelos diversos ferimentos. O pacote de absorventes no armário, marcado pela queimadura do cigarro apagado em sua coxa, próxima à virilha. Costurado pelo fio dental estava o corte no canto de sua boca, e a pasta dental sobre a pia carregava o gosto do sangramento em seus dentes. Os inchaços em seu olho esquerdo, nos braços e  costas, o vergão roxo de sangue concentrado em seu abdomem, todos latejavam em contato com a água. Que descia quente do chuveiro elétrico, todas as contas pagas. Sem atraso.

***

Cerca de um ano e meio atrás, Laila teve uma espécie de namorado. Júlio era contador, ou advogado, ela nunca soube bem. Se conheceram na fila do cinema, na estreia do segundo filme de uma série adaptada dos quadrinhos. Ela sentia-se animada, havia lido comentários de que este filme era melhor que o primeiro, do qual também tinha gostado e, mesmo ansiosa pela expectativa de um segundo filme melhor, não entendia por que as críticas definiram o primeiro como um completo desastre. Júlio concordou, emitindo a mesma opinião, por mais que acreditasse que o primeiro filme, na verdade, não valesse um minuto sequer de seu tempo. Ambos foram até o cinema sozinhos, terminaram assistindo juntos ao filme. 

De lá sairam, Júlio para um café, Laila com um outro nome, num Bistrô ao fim do quarteirão.  Ela parecia uma radiante outra garota qualquer, alegre pelo filme, feliz pela companhia e a conversa, um intervalo doce entre goles amargos. Ele foi gentil, tocou em seus cabelos, a ouviu e concordou plenamente, até conseguir dela o que queria uma primeira vez, mas sob a densa penumbra de luzes apagadas e debaixo de camadas de cobertores. E ela deleitou-se, genuinamente, carente como qualquer outra mulher sem relações há tanto tempo, escondendo as cicatrizes na escuridão. Júlio fingindo nobreza e heroísmo. Ela, ensaiando timidez. 

O dinheiro adquirido do cliente encontrado na última noite, Senhor Privada, como ela o chavama, cobriria as despesas de Laila por algumas semanas. Tempo suficiente, ela esperava, para sua convalescência. Sr. Privada a fazia lembrar-se de Júlio, por mais que ambos não tivessem qualquer semelhança física. Ele era um oriental baixo e com sobrepeso, chinês ou japonês, ela não saberia diferenciar, enquanto Júlio era alto e de pele morena, os cabelos e olhos castanhos. Mesmo assim, ela não conseguia desfazer a associação. Talvez fosse a maneira como ambos procuravam atuar alguma simpatia, com cumprimentos e sorrisos cordiais. A forma semelhante como eles imitavam decência. 

Assim como Júlio, sr. Privada andava sempre acompanhado de uma maleta de couro negro, mas as relações acabavam aí. O ex-namorado carregava papéis, ofícios e documentações legais, enquanto seu cliente carregava uma identidade secreta. Como o reporter que veste um colan de super homem e alça vôo, ele retirava uma tampa de privada da maleta e a colocava em volta do pescoço, uma corda amarrada ao objeto, insinuando-a depravadamente como uma coleira, a maioria das vezes. Mas em alguns momentos, fazia-se um chapéu. E ele então sorria, porque ali, entre as paredes vagabundas de um quarto de motel, ele vestia, finalmente, seu verdadeiro rosto. Lá, ele era mais do que o resquício infinitesimal de homem que sentia-se ser durante o resto do seu dia imundo. Laila era uma vadia e ele, as próprias asas da condenação.

***

O romance com Júlio durou por apenas alguns poucos meses e o fim de seu relacionamento não foi nada gradual. Certa noite, Laila caminhava pelas úmidas ruas de seu ofício, esperando a chegada de um cliente, o encontro já todo arranjado, como usual. Um carro finalmente parou e destravou a porta, um de modelo já conhecido, mas ela não conseguia associa-lo a este ou  nenhum outro de seus clientes. Ela abriu a porta e, no banco do motorista, Júlio olhava para frente, as mãos cerradas no volante, sua testa branca reluzente de suor, assumindo a tonalidade azul das luzes da cidade. Ela enfrentou friamente o desastre no interior do carro, engolindo em seco a própria hesitação ao entrar e, quando fechou a porta, o automóvel já estava em movimento, à procura da espelunca mais próxima. 

“Eu nunca trai você...”, disse ela, interrompendo o silêncio, mas sem proferir toda a sentença. As mãos de Júlio, já marcadas pela chegada dos 40 anos, mesmo faltando ainda quase dez aniversários para chegar a tal idade, contrairam-se no volante. Ele riu e fez um gesto para que Laila não dissess mais nada. Ela enclinou o rosto à janela e apoiou a cabeça com a mão direita, sem saber como falar o que tinha a dizer. 

Chegaram a uma pensão, já conhecida por Laila, dentre todas as bibocas dali. Ele pagou adiantado o quarto e ambos começaram a subir. No meio das escadas, Laila sentiu algo pressionar seu peito e desacelerou o passo, mas Júlio a pegou pelos braços e puxou escada acima, quarto adentro. Trancou a porta, tirou algumas notas da carteira e as jogou no criado mudo, ao lado da cama de casal. Havia um armário no quarto, ao lado da janela fechada, além de uma porta para  um  banheiro minúsculo. À vista, nada mais.  

“Então, quanto é que você cobra? Isso dá?”, Júlio perguntou, abrindo um sorriso ofegante, tentando mascarar o tom agressivo em sua voz, como um lobo socializando-se entre ovelhas. Lembrava um retrato amador e inexperiente de Privada, amedrontador em sua perfeita simpatia. “Quanto você cobra, deixa eu ver...”, e acrescentou, após uma pausa, “Quanto você cobra pra apanhar?”, apontando com a cabeça para o dinheiro sobre o criado, a voz estável mas os olhos perdendo para a vermelhidão de lágrimas furiosas.

Mesmo olhando para o chão, Laila sabia quanto dinheiro havia lá. Seu preço era três vezes mais que o valor depositado sobre o criado, porém ela apenas acenou positivamente com a cabeça, sem mais nada a dizer. Apesar dos olhos vítreos e ressecados, seus lábios tremiam como os de uma criança amedrontada, confusa dentre qual, de todas as justificativas que lhe ocorrem pela mente, ela deveria usar para compensar seus erros.

“Bem, então pode começar. Tira a roupa.” disse Júlio. Laila tentou deixar escapar algo de sua boca, num ato fraquejante de protesto, para ser interrompida aos gritos. “Tira a roupa, sua puta de merda!”, o homem berrou, e foi então que ela reconheceu a inconfundível frequência de som, o timbre mortificante dos homens que foram tragados pelas profundezas de suas imperfeições aberrantes. Laila engoliu em seco suas confissões, algumas doces, a maioria amargas, sabendo que havia entrado no negrume do mundo dos negócios, onde nada mais que ela fizesse era pessoal, e ali apenas Laila era real, nada mais fazendo sentido.

Os olhos de Júlio saltavam para fora de seu rosto, erguidos pelas veias à mostra em seu pescoço, observando as mãos de Laila desabotoarem seu sobretudo aveludado preto, botão a botão. As peças de roupa caiam ao chão conforme ela se despia, revelando o mapa de delitos crivado em sua pele alva, guiando Júlio à derradeira compreensão das idiossincrasias de seu relacionamento – o intenso envolvimento afetivo em contraste ao estranho distanciamento físico;  as relações sempre em quartos escuros e o excessivo pudor; as crises de pranto ao telefone, no meio da madrugada e os dias seguintes, em que ela recusava-se a ve-lo pessoalmente. 

“Me contaram mesmo”, ele falou ao aproximar-se de Laila, inadivertidamente apreciando suas contusões. “Contaram que o seu negócio é apanhar. Agora faz sentido. Muita coisa”, disse, mensurando com os olhos o corpo de Laila, finalmente exposto à cínica luz.

 “Não é como você está pensando”, ela tentou. E buscou pela distante dimensão da razão e bom senso uma segunda vez, “Eu não...”, apenas para ser interrompida novamente, o som espalmado da pancada em seu rosto ecoando brutamente para fora do quarto. Ela caiu de joelhos, as mãos apoiadas no chão, e mesmo com os sentidos recindindo e bailando, Laila sentia o sabor férreo de sangue espalhar-se em sua boca. Apenas um pequeno corte, insuficiente para escorrer para fora dos lábios imediatamente.

Afinal, Júlio era novo naquela arena de explorações. Para ele, toda aquela noite fora apenas um colapso momentâneo, causado pela humilhação, real ou imaginária, de ter sido enganado, segundo seu próprio entendimento, por uma prostituta. Para si mesmo, ele era apenas um homem comum. Mais um homem sórdido e fraco. Por mais que tivesse demonstrado potencial, ele carecia da engenhosidade diabólica de sr. Privada, que ajoelhava-se e comportava-se como um cachorro, controlado por Laila através de sua coleira-tampa de vaso sanitário. Júlio, apesar do talento, ainda tinha muito o que aprender. Enquanto Sr. Privada levantava uma das pernas, a lingua para fora em desabafo ritual, e urinava sobre o objeto mais próximo, ansioso que sua dona cumprisse então o papel de repreende-lo e surrá-lo. Mas, a cada pontapé e cintada, o pobre cão tornava-se cada vez mais rábido, louco e cruel, até por-se finalmente de pé, sobre as duas patas, rosnando com uma voz de outro mundo, passando a privada sobre si para os ombros de Laila, a derrubando bruscamente pelo pescoço, a golpeando, e mordendo, a chutando e cuspindo e lambendo. 

Ao todo, as agressões de Júlio contaram apenas um tapa e um suave enforcamento, ambos dentro do espancamento previsto no acordo feito entre Laila e seus seletos clientes. Porém, desta vez, o sufocamento veio seguido de tentativa de estupro - sim, estupro - para o total estupor de Júlio. Quando a levantou do chão e jogou-a na cama, abaixando as próprias calças e forçando-se para cima de seu corpo, as mãos em seu pescoço, Laila esperneou e lutou, gritando não. Pois Laila era uma boneca de pano, um joão bobo, ser espancada era todo o seu jogo. Nada menos, nada mais do que isso. 

“Mas nunca. Nenhum deles. Sexo. Jamais”. Era tudo o que ela tinha a dizer.

***


Laila passou horas debaixo do chuveiro aquela tarde, olhando seu corpo refletido no espelho, lembrando-se do ex-namorado de mais de um ano atrás. A verdade é que o associava ao autor das atuais equimoses não por quaisquer semelhanças materiais, mas por um sentimento em comum, mantido em relação aos dois. De todos os seres violentos com quem mantinha contato profissional periódico, o oriental não era apenas sádico ou masoquista. Estas eram denominações muito civilizadas. O homem do vaso era completamente louco. Era vil e perigoso. Ela o atendia apenas por ser o cliente que melhor pagava, requisitando seus serviços somente entre longos intervalos de tempo. Mas ela o temia.

Era o medo, este sentimento em comum – pois as lembranças do ex-namorado a faziam questionar a razão de todos os seus esforços em preservar os frágeis alicerces de suas esperanças. Pois a menina inocente, que usava o nome de Laila, sonhava um dia casar-se e ter finalmente sua filhinha. E lutava para acreditar que, quando isso acontecesse, ela não teria que carregar em suas costas a culpa de ter prostituido seu sexo. Seria uma esposa e mãe direita, uma mulher de respeito. Preferia aguentar, estoicamente, a catarse esmagadora de seus clientes bestiais, vitimando a carne de seu corpo, mas jamais seu afeto e dignidade. E isso tudo para poder sobreviver num mundo sem oportunidades, onde seu herói tardava, mas havia de chegar. Entretanto, Júlio não entendeu isso, nem jamais quis ouvir.
Às vezes, olhando-se no espelho, ela imaginava se a loucura dos homens que encontrava na escuridão da  noite, já não a havia esculpido e apoderado de si, corpo e alma.

Após sair da ducha quente, Laila deitou-se na cama, decidida a dormir o resto do dia, com ajuda de analgésicos e relaxantes. De olhos fechados, imagens diversas emergiam em sua mente. Via-se com Júlio, na última vez em que fizeram amor, antes da noite do término; do Sr. Privada, a arrastando pelo chão com a corda anexada à tampa de vaso, sua ponta livre amarrada no pescoço de Laila, enquanto ele ria ensandecidamente; da tentativa frustrada de Júlio em ter sexo pago com sua então namorada, e sua incredulidade ao ouvir que ela não mantinha relações sexuais em seus programas.

E conforme o sono quimicamente induzido aproximava-se, uma cena diferente começou a formar-se em sua mente, que flutuava entre a vigília e o seu recesso. Um elemento em comum entre as cenas de motel com Sr. Privada e o ex-namorado, que ela havia até então esquecido ou era apenas uma miragem onírica. Lembrou, ou sonhou-se ver, quando jogada ao chão em ambos os casos, algo como uma pequena bola verde de textura aveludada, esquecida embaixo do armário dos quartos. Nos dois sonhos – ou memórias – mesmo com a visão turva da dor e sufocamento, ela conseguiu identificar o estranho objeto. Aparentemente, um chaveiro com uma pequena cabeça verde e redonda, de olhos grandes e saltados para fora, um sorriso vermelho aberto por toda a face. A esfera sorridente, posicionada aleatoriamente ao chão, parecia fitar Laila com olhos anfíbios, registrando cada soluço de sua provação. 

Verde como uma cabeça de sapo. 

E Laila dormiu inquieta, na periferia do entendimento de que, dos homens que havia encontrado até então, nenhum deles era sequer um legítimo pesadelo.

Gustavo Rezende 


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P.ost S.criptum
Bem, o texto ainda está sujeito a algumas revisões. Mas acho que já está legível, então vai aí. E não, não está completo, tem duas partes. Postarei a 2ª parte quando puder.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Registro

O aroma espinhoso de viçosas flores
Fragrância de histórias não contadas
Cultivadas sozinhas no peito escuro
Botões crescidos da angustiada fé

E palavras dançam num baile de rodas
Grifadas em círculos por dedos finos
Ocultos num acordo tácito, os sujeitos
Se encontram no raiar de olhos diurnos

Por linhas discorrem numa linguagem suave
Escorrendo pelas molhadas sinuosidades do registro

Os leitores e signos confundem-se, contextualizados 
Às páginas labirintinas de seus sonhos transcritos

Gustavo Rezende

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Como Rio

Não havia muito tempo e ele decidira viver de novo e muitas vezes. “Como assim?” - ele também se questionou em um primeiro momento. Ao pensar a completude não mais como a consolidação plena de uma única vida e ver experiências várias e fragmentadas como a solução da sua dificuldade de estabelecê-la, a completude, ele buscaria “nascer” quantas e quantas vezes fosse necessário para nunca se sentir impossibilitado ou conceber inalcançável o seu exercício de vida. Como principal aspecto desse novo paradigma tomou para si a verdade primeira de que o maior sinal de que outra vida já estava disposta a nascer nele, a vontade de permanecer imutável. Quando irrompesse nele o desejo e o apego pela vida corrente, logo ele deveria levar-se de volta ao seio maior de sua missão. Viveria vidas como quem nada nos rios, pois via neles a metáfora sincera de uma vontade ingênua. Iniciar em bicas gorgolejantes, puras e cristalinas e seguir desenhando frívolo e espontâneo os rumos e cursos de sua existência ainda doce, ignorante do fim salgado, morno e quase estanque do mar. O mar, que jura ser o ideal soberbo da completude pela unicidade. Quem lhe dera poder viver o curso da vida de várias formas, buscando sempre o recomeço e recortar terrenos e seguir caminhos únicos sem nunca, nunca buscar como fim uma poça gigantesca e salobra como asilo. Seria o mar o nirvana para os rios? Se assim o pensarem, caso pensassem, ele tomaria partido e os tentaria convencer a nunca rumar os litorais, como um profeta, talvez. Que melhor é correr sempre atento na trama que se constrói e quando começar a dar formas complexas demais, padronizadas demais, rotineiras demais, revolver-se iria novamente ao seio da terra e lá se recolheria todo a fim de inundá-la e reiniciar de novo o início da torrente.

Rafael Abdala.


P.S.: As imagens surgiam caóticas, quase que liquefeitas... delírio de quem masca a noite buscando qualquer tipo de luz.