terça-feira, 29 de março de 2011

Reflexo urbano

Desnudo a cidade em que meus pés caminham
Lançando-lhe um olhar ressequido e desvirtuado
Suas ruínas entranhadas lascivamente me contam
que as raízes da cidade igualmente andam em mim

E as imagens obradas nos muros ingênuos exibem
a composição inconsciente de seus fracassos
Me enxergo, confuso junto às ruas sem projeto
Desordenado, com elas prolifero-me, sem saída 

A cidade engole a si mesma, voraz em sua reforma
do concreto e da carne, pela depedração decorada
Uma simbiose de relações e acidentes de trabalho 

O que resta no peito, devoro, canibal em minha revolta
No entulho refletido em minhas edificações, me espelho
e o elimino, vazio como aquilo que reflete-se em mim

Gustavo Rezende

quinta-feira, 3 de março de 2011

Fugitivos

Andrajos rotos com que se vestem
Os peitos cobertos por trapos sujos –
Poemas úmidos, que tolamente escondem-se
Costurados à círculos de esforço inútil
Por linha à margem da desistência
As agulhas os ferem, por tão pouco,
Com persistência mecânica, perfuram
Os pulsos esfolados, anônimos e defuntos

Contaminados por infecções intra-uterinas
Largados sós, exultantes nas feridas do parto
Se entregam à aliança de seus poetas jurados
Autores, bastardos, desertores e fugitivos
Sôfregos por fingir vida e sustança
Mas, preenchidos por dioramas e espaços vazios
Aberrantes, deformados na alma e malditos
À legião retornam da fuga por campos elísios

Gustavo Rezende