quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Corpo

Sujeita o teu olhar
asséptico a este corpo,
clinicamente exposto
e engravatado ao meio,
da fronte ao peito,
como discurso que
intimamente sangra,
estéril. Um corpo eleito,
democraticamente feito
à imagem arruinada
do teu. Fita nele o
cenho cruamente fecundo
das emoções carnadas
em tua máscara
de retalhos morais.
Irrita teus olhos vidrados
e compartilha da
agonia pública,
nem que por um só breve
instante de violenta e
impenetrável comunhão.

Gustavo Rezende

P.ost S.criptum 
Minhas impressões ao acompanhar (mais ou menos) a elaboração do projeto de performance "Impenetráveis", do Grupo Empreza, a ser apresentada dia 21 de Agosto, em Cuiabá.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Carnívoro

Guarda em silêncio tua lástima, derradeira.
Teu rebento, que então jogaste aos lobos,
àqui retornado, lobo ele está, já entre vós
atraído pelo doce odor de tuas feridas latentes

Esperavas que do abandono por ti semeado
germinasse o semblante fugidio do cervo?
O broto assim cultivado cresceu carnívoro
Reforjado no aço que falhou em abatê-lo

Na construção de um peito quebrado, o fizeste fera,
como se por acaso. Ao toque espinhoso de teus carinhos,
olhos ressequidos o fitam, símbolo ultimado de teu fracasso

Meras portas trancadas, em vidro guardadas, mal protegem
tua frágil morada do hálito amargo de vossa cria marginal
Apresenta-te, Criador! enquanto pelos teus frutos és devorado

Gustavo Rezende