sábado, 6 de outubro de 2012

Reticências

Ainda que confinem meus olhos
às fórmulas herméticas da carne;
    e minha alma seja
    ungida em sangue

Ainda que o vazio de tantas vozes
sacrifique o meu julgamento;
    e meus lábios sejam
    frígidos feito o mármore

Ainda que, intimando a escuridão,
eu estremeça e sempre chore;
    e a ameaça da memória
    me ultime e então destrua

Ainda que nas dores de meu corpo
os sonhos e a matéria se confundam;
    e o fracasso seja a única
     promessa de repouso

Ainda que eu fortaleça minhas mãos
em proteção a absolutamente nada;
    e minhas asas quebradas
    sejam sempre ausentes

Ainda que eu lhes entregue as lembranças
de todos os meus crimes e histórias;
    e permita o mundo
    esvaziar-me da realidade

Ainda que os sussuros do Portão Negro
finalmente vençam a minha lógica;
    e em meu túmulo não hajam
    flores, mas sim correntes

Gustavo Rezende

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