sexta-feira, 14 de março de 2014

Imagem corpo

               Sonhos de organicidades com entranhas e mecanismos únicos são delírios de aristocratas, construções de mo[n]struários sobre impérios e teocracias mercadológicas dos sentidos.  Tampouco há apenas um só conjunto de sentidos, pois cada técnica, que surge em cada novo suporte, amplia, distorce ou reconfigura a necessidade e processo humano de reproduzir-se por diferentes significados. E a história humana de sua  [re]representação, não poderia ser mais febril que em seu desenvolvimento no campo da produção de imagens – de si própria ou, mais precisamente, do que acredita-se ser a presença  ou ausência do Eu; e do meio, parte indissociável de muitas noções do que é humano, pois tudo o que habitamos e voltamos nossa atenção sobre, nos apropriamos, o transformamos de acordo com nossas obsessões antropomórficas. E, ao mesmo tempo, os ambientes também se apropriam de nosso corpo em sua espaço-presencialidade, ao passo que, irremediavelmente, o habitat, com maior ou menor grau de artificialidade apropriada – ou graus de antropomorfização – absorvem a imagem-corpo humana a suas matrizes (arquitetônicas, plástico-visuais, energéticas, sócio-administrativas). A partir de então, a imagem-corpo que apropriou-se e transformou o meio, a este retorna, como elemento composicional, integrado por uma paisagem maior que lhe reconfigura, distorce e confere novos significados.

                Assim, podemos antever uma realidade óptica, à luz de projeções do Eu em tudo o que nos cerca, as imagens do homem, da mulher, e das gradações que decantam e multifacetam a concepção tradicional destes gêneros, todas espelhadas na construção do meio, num processo mútuo e retroalimentado de representações [audio]visuais. Neste encerramento por espelhos, encontram-se concepções de mundo, seus significantes e significados, representantes e representados, ensaiando inúmeros sentidos para seus movimentos, alcançado diferentes profundidades na exploração estética das imagens-corpo. Ou ainda, também componente desta realidade, o espaço entre o representante e a recepção dos significados, a fissura endêmica do construto de verdades humanas – o próprio objeto representado, que dispensa  o nosso olhar, sendo absoluto e vazio em si mesmo, que não existe sensorialmente, tal como acreditamos que nós mesmos existimos. E não falamos aqui apenas de pedras ou sal, mas da dissociação das partes desta imagem-corpo, o corpo alienado da imagem, e suas permutações, vice-versas e pluridades semânticas, o abismo sedutor de totalidades inexequíveis, a consciência como corpo? a consciência como imagem? consciência?

                O que podemos fazer, e que no século XX, passou a ser feito com crescente frequência, é projetar nossas imagens-corpos a este vazio entre-espelhos, na esperança de que a luz – a imagem quintessencial – nos forneça fragmentos e contradições que transcendam  nossas verdades categóricas; que possamos traduzir, através da saturação de nossos sentidos, valores semânticos e descobertas que ultrapassem as conquistas da Tradição das linguagens. Pois ela já vislumbra o seu limite. O acesso à substância das iniquidades consensuais necessita de suportes que transitem por estes meios imateriais, que possam mobilizar a energia composicional das formas, afim de descontrui-las, compreende-las o vazio que concretiza suas partes em unidade,  e reformata-las de acordo com as visões traduzíveis neste processo. Aí também o corpo encontra seu limite, dependendo de suportes técnicos cada vez mais inorgânicos, que estrapolam suas capacidades cognitivas, de comunicação e recepção, além de lhe proporcionar a atuação num meio, até então, inacessível ao corpo nu. É mais um exemplo, como afirmado anteriormente, da antropomorfização do espaço – agora, galgamos por um ambiente praticamente invisível, de prótons, elétrons e ondas de energia, e o convertemos para os mais diversos fins, como, não menos notáveis que qualquer outro, o questionamento, decomposição e rearranjo da forma e sentido de nossas representações.


No ato de tradução, são conferidos signos a ambos os lados do processo, potencialmente gerando conceituações que, independente de emancipações ou critérios, são unidades teóricas historicamente construidas e intimamente dependentes do alcance dos sentidos do corpo. Desta forma, não seria espantoso se os fragmentos resgatados do jogo de luz e sombra com o vazio das intersecções entre os processos de criação formais – os vazios da tradução, pois tudo é tradução de signo para signo – redundassem sobre permutações de um único tema – os imaginários da imagem-corpo e seu meio. Enxergaríamos, pelas frestras entre os espelhos, mais reflexos e representações, ainda que outras, ou ao menos diferentes, das mesmas imagens-corpos que selecionamos projetar inicialmente, em tom de questionamento. E realizamos estas projeções através de suportes eletro-orgânicos das imagens, que retornam amalgamadas do que, até então, ficou no silêncio das formas fechadas, inintercomunicáveis da tradição. 

Portanto, os novos suportes técnicos, que apresentam a tradução de, e em, um novo meio de expressão, em seu caráter de indissociação histórica das técnicas e teorias que a antecedem, rompem a espaço-presencialidade imediata da imagem-corpo, rumo à presentificação de seu passado e relativização de seu espaço-tempo. E a imaterialidade destes objetos, conceitualmente reconfigurados à luz de sua própria condição, abre um novo horizonte de formas, nos mais diversos aspectos da experiência sensorial, desde reformatações dos princípios de público e privado, legalidade, relações sociais e de gênero, comparações entre espaços imateriais análogos aos da matéria, não-territórios, a arte... O status multipresencial das propriedades imateriais traz à tona as lógicas de compartilhamento e a reconfiguração da liberdade individual como parte da liberdade do outro, o indívíduo como parte do todo. E assim pensamos não apenas nas imagens-corpo individuais. As discussões não giram apenas em torno do Eu, mas de uma existência que pervade a coletividade, que reconhece a multiplicidade de colaborações e enfrentamentos.

Gustavo Rezende

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