sexta-feira, 14 de março de 2014


O MINOTAURO
((Receita Clássica para gerar monstros))

Desde a Antiguidade Clássica chega até nós um singular método para produzir monstros. Basta fazer o seguinte: Pegue dois ou mais animais, da mesma espécie ou de espécies distintas, depois seccione estes animais em determinadas partes, e em seguida remonte-os trocando as partes, ou repetindo a mesma parte várias vezes no mesmo animal, e pronto, tem-se então um bestiário clássico. 

Para o pensamento clássico é monstruoso tudo aquilo que é híbrido, tudo o que é misto, tudo o que é composto. É monstruoso tudo o que desafia uma ordem pré-estabelecida, e identificada com a Razão. No método proposto, o monstro é identificado por sua irracional singularidade, por atentar contra uma Razão que a humanidade arroga a partir de si e projeta na natureza.

Boa parte dos monstros que povoam os mitos clássicos são feitos segundo esta receita. Há mesmo como separá-los em algumas categorias. Temos, por exemplo, os monstros policéfalos, como Cérbero, o magnífico mastim do Hades, com suas três cabeças, ou ainda a Hidra de Lerna com suas múltiplas cabeças de serpente. Nestes casos, as cabeças replicadas são idênticas, como uma cabeça original que é copiada muitas vezes. Um caso diferente é o da irmã da Hidra de Lerna, o monstro chamado Quimera, também filha de Tífon e Équidna. A Quimera é uma serpente gigantesca com duas cabeças, uma de cabra e outra de leão. Por ter cabeças assimétricas, oriundas de espécies distintas, a Quimera tem acentuada a sua monstruosidade. Quanto mais misturado, mais monstruoso.

Há também a categoria especialíssima de monstros onde o HUMANO entra na mistura. Os mitos clássicos também são pródigos neste tipo de seres semi-humanos. É fácil perceber que ao se acrescentar humanidade à composição do monstro, acrescenta-se o princípio da Razão. Por que possuem uma parte humana, estes monstros são, ou deveriam ser, em parte racionais. Vejamos os casos onde o monstro possui a cabeça humana. Nesta sub-categoria estão, por exemplo, o Centauro, o Sátiro, e a Sereia. Estes monstros, por possuírem cabeça humana, possuem igualmente um princípio racional. Mais do que isto, estes monstros possuem linguagem, e conseguem viver em comunidades. A parte animal destes seres, contudo, denuncia que sua razão é conturbada, ou antes, é deformada por afetos, vícios e comportamentos irracionais. Como diria Goya, o monstro surge onde a razão adormece. É a parte animal que justifica a agressividade dos centauros, a sensualidade dos sátiros, e a perfídia das sereias; ou ainda a arrogância da esfinge, que se apresenta como monstro lógico, quando realmente não o é. Assim, a irracionalidade da parte animal é usada para explicar a bestialidade da parte humana.

Mas há também os casos em que o monstro, apesar de possuir partes humanas, tem a cabeça de um animal irracional. A mais notória destas criaturas é o MINOTAURO, que tem um corpo humano coroado por uma cabeça de touro. Apesar de se parecer, em parte, com um homem, o minotauro, por ter cabeça de touro, não possui razão alguma. Sua natureza é unicamente a da fera. Não sendo racional, ele não possui vícios. Sua monstruosidade lhe é totalmente adequada. O minotauro é só, isolado. Ao contrário de outros monstros, ele não suporta a alteridade. Ele se alimenta de carne jovem. Sua casa é um labirinto, e ali ele vaga sem rumo, à espera de sua presa. O minotauro não tem linguagem, não tem interface, não pondera, não negocia, não tem qualquer tipo de paixão; ele apenas devora, exercendo naturalmente sua vocação de predador.

Aquela antiga receita ainda é eficaz no presente. Antropólogos, biólogos e historiadores já gastaram muita lauda antiga para nos contar como, desde que Zeus transformou-se em touro para transar com alguma mortal, sua descendência habita o nosso planeta-labirinto. São seres metade homem, metade touro, cuja parte fera justifica a ferocidade da parte homem. Uma multidão de monstros irracionais, bilhões de minotauros, que neste momento aguardam e anseiam por devorar a vítima mais próxima.

VIDA LONGA À NOSSA RAÇA!



Grupo EmpreZa

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