quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Como Rio

Não havia muito tempo e ele decidira viver de novo e muitas vezes. “Como assim?” - ele também se questionou em um primeiro momento. Ao pensar a completude não mais como a consolidação plena de uma única vida e ver experiências várias e fragmentadas como a solução da sua dificuldade de estabelecê-la, a completude, ele buscaria “nascer” quantas e quantas vezes fosse necessário para nunca se sentir impossibilitado ou conceber inalcançável o seu exercício de vida. Como principal aspecto desse novo paradigma tomou para si a verdade primeira de que o maior sinal de que outra vida já estava disposta a nascer nele, a vontade de permanecer imutável. Quando irrompesse nele o desejo e o apego pela vida corrente, logo ele deveria levar-se de volta ao seio maior de sua missão. Viveria vidas como quem nada nos rios, pois via neles a metáfora sincera de uma vontade ingênua. Iniciar em bicas gorgolejantes, puras e cristalinas e seguir desenhando frívolo e espontâneo os rumos e cursos de sua existência ainda doce, ignorante do fim salgado, morno e quase estanque do mar. O mar, que jura ser o ideal soberbo da completude pela unicidade. Quem lhe dera poder viver o curso da vida de várias formas, buscando sempre o recomeço e recortar terrenos e seguir caminhos únicos sem nunca, nunca buscar como fim uma poça gigantesca e salobra como asilo. Seria o mar o nirvana para os rios? Se assim o pensarem, caso pensassem, ele tomaria partido e os tentaria convencer a nunca rumar os litorais, como um profeta, talvez. Que melhor é correr sempre atento na trama que se constrói e quando começar a dar formas complexas demais, padronizadas demais, rotineiras demais, revolver-se iria novamente ao seio da terra e lá se recolheria todo a fim de inundá-la e reiniciar de novo o início da torrente.

Rafael Abdala.


P.S.: As imagens surgiam caóticas, quase que liquefeitas... delírio de quem masca a noite buscando qualquer tipo de luz.