domingo, 30 de dezembro de 2012

Haiku

Da grama fito
O homem de um jardim
Podar suspiros

Gustavo Rezende

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P.ost S.criptum
Em tese, é um haiku, estilo japonês de poema, mas na verdade não é, pois a métrica do haiku utiliza  elementos gramaticais exclusivos da lingua japonesa. Convencionou-se um paralelo entre elas e a gramática ocidental, como o número 5/7/5 de sílabas por verso, mas na real, é puro migué.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Além da sombra cotidiana

Tuas mãos transbordando
as dela, contendo e liberando-as

Incandescentes de carícias úmidas
que ainda brincam em sua boca

Teus dedos saltitam em busca
do que a sombra cotidiana oculta

Seus segredos que convidam
e represam a maré que o fogo clama

Enquanto tu és voluntário ao
suor alheio em que perde os teus lábios

E a tua língua a fere e mapea,
aprofundando-se em seus tesouros

Ela escava a pele em teu peito
até minar de ti a cor rubra do desejo

E a sinfonia orgástica em suas
feições enfim o despe de tuas dores

 Gustavo Rezende

sábado, 6 de outubro de 2012

Reticências

Ainda que confinem meus olhos
às fórmulas herméticas da carne;
    e minha alma seja
    ungida em sangue

Ainda que o vazio de tantas vozes
sacrifique o meu julgamento;
    e meus lábios sejam
    frígidos feito o mármore

Ainda que, intimando a escuridão,
eu estremeça e sempre chore;
    e a ameaça da memória
    me ultime e então destrua

Ainda que nas dores de meu corpo
os sonhos e a matéria se confundam;
    e o fracasso seja a única
     promessa de repouso

Ainda que eu fortaleça minhas mãos
em proteção a absolutamente nada;
    e minhas asas quebradas
    sejam sempre ausentes

Ainda que eu lhes entregue as lembranças
de todos os meus crimes e histórias;
    e permita o mundo
    esvaziar-me da realidade

Ainda que os sussuros do Portão Negro
finalmente vençam a minha lógica;
    e em meu túmulo não hajam
    flores, mas sim correntes

Gustavo Rezende

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Sublime

Assim este sóbrio, demais. poeta sem rimas
Sequestrado por atrasos, vem descreve-la
Como? assim inundado por tuas cores sublimes?
Embriagado. de certo em delírio ao seu toque

Em meus olhos cerrados. você figura, no escuro
Ante as pálpebras, sonhada, delicioso sorriso
Quimera. onde quer que olhe, tua marca
Que arde, imolada em minha perspectiva

Seu gosto, a graça da nascente. exsurgente,
Afogo, e me lavo. pela boca, então as lentes
E decifro a minha febre

A descreve assim, o poeta. infestando de si o papel
Contaminado por ela. e sangra, transformado
Pelo cheiro que é só teu

Gustavo Rezende

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Corpo

Sujeita o teu olhar
asséptico a este corpo,
clinicamente exposto
e engravatado ao meio,
da fronte ao peito,
como discurso que
intimamente sangra,
estéril. Um corpo eleito,
democraticamente feito
à imagem arruinada
do teu. Fita nele o
cenho cruamente fecundo
das emoções carnadas
em tua máscara
de retalhos morais.
Irrita teus olhos vidrados
e compartilha da
agonia pública,
nem que por um só breve
instante de violenta e
impenetrável comunhão.

Gustavo Rezende

P.ost S.criptum 
Minhas impressões ao acompanhar (mais ou menos) a elaboração do projeto de performance "Impenetráveis", do Grupo Empreza, a ser apresentada dia 21 de Agosto, em Cuiabá.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Carnívoro

Guarda em silêncio tua lástima, derradeira.
Teu rebento, que então jogaste aos lobos,
àqui retornado, lobo ele está, já entre vós
atraído pelo doce odor de tuas feridas latentes

Esperavas que do abandono por ti semeado
germinasse o semblante fugidio do cervo?
O broto assim cultivado cresceu carnívoro
Reforjado no aço que falhou em abatê-lo

Na construção de um peito quebrado, o fizeste fera,
como se por acaso. Ao toque espinhoso de teus carinhos,
olhos ressequidos o fitam, símbolo ultimado de teu fracasso

Meras portas trancadas, em vidro guardadas, mal protegem
tua frágil morada do hálito amargo de vossa cria marginal
Apresenta-te, Criador! enquanto pelos teus frutos és devorado

Gustavo Rezende

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Sedento

A tinta desfalece
ao registro das cândidas
falácias. Entre as linhas
de palavras obtusas –
lá estou eu,
no deserto de sua leitura,
ainda sedento.
À procura
das tais formas
puras,
um oásis de lábios
abundantes
e fúteis.

Um olhar, moribundo;
é tudo com que me recebe.
As virtudes então lidas –
bela, mera decoração
fúnebre, para as
lacerações abjetas
 que pulsam no peito.
Não há fino verso
que as absolva – o odor
râncido dos dejetos
é o coração
de suas terras 
mais férteis

Gustavo Rezende

terça-feira, 29 de maio de 2012

Carta

Esse nome escrito
a dedo sobre a água
Um poema transitório,
ainda não descrito
Deixado no correio
numa carta em branco
Do texto apagado
remanesce apenas o destino
Talvez um relato
de sonhos diurnos?
Há sim um romance,
de Fântaso herdado
Sacerdotes mortos não
podem calar minha confissão
O soldado aprende
a matar com palavras armadas
Seu Rei pode reinar sobre
as meretrizes de pobre linhagem
Ou o carteiro, escrever sobre
as páginas vazias de promessas
Entre o conflito; nada ouviu-se
sobre cartas de rendição

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Narrativas

As sintaxes incompreendidas, escondidas
entre as pequenezas da linguagem;
a verdade não entregue, o carinho não dito

Com as páginas vazias de todo santo dia
assim preenchidas, num fluxo lasso;
a canção quase presa aos signos manuscritos

E juntos, uma narrativa! sem magia, em pílulas
de sentido laico e fórmulas sem redução;
no peito, o semblante da glória. Se não, o do frio


Gustavo Rezende

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Em andamento (Empire of Tears)


 And I was rudely awakened from my slumber by the harsh realizement that, If I was to be cared for at this moment, it would be only so that soon I would bring sorrow and disaster to the hands that once I wished they could cherish me. Thus I chose, or perhaps it was chosen for me, the stance and gaze of a statuesque monster, who watches the world and it´s colors swirl and dance by, instead that of a poet and dreamer, who paints these same energies in pages of pain and delight, eternalizing life in concepts and memory. And so it is because at least one of the lessons the searing sun taught me, I know it to be true – that one mustn´t pray to either Gods of heaven or of the human breast; not to have his love and beloved stuck amidst the splinters of one´s shattered heart.


Gustavo Rezende

terça-feira, 17 de abril de 2012

Carta aos Celestinos

Nem mestre ou prisioneiro de nada
Não há musa, nem palavra em cárcere
Apenas razão e loucura confusas
        Do alento que incessante se prova
        E de talentos e fissuras que pulsam

Oh Sol! Abrasivo, carinhoso e fecundo!
Cujo punho queima, adoece e ofusca
Os olhos do corvo assistiram à tua alvorada
        Agora o devolve às noites de Lua
        O repousa do calor e exposição

E se o escuro acolher suas asas, mais uma vez
Mesmo se punido pelas travessuras e insurreições
Ele reassumirá seu posto, faminto do mundo
        Agraciado pelos caídos e sua agonia
        Degustador dos mortos e seus pecados
   
Nas sombras sua rapina já está reerguida
A espreitar as rodas circundantes ao fogo
Farejando o vinho, entre outros odores erógenos
        Juntos aos passos inebriados e trôpegos
        A serem traídos para longe da luz

Estas pegadas não temem seus olhos opacos
Mal reconhecem os reflexos de tão vil postura
Oh Anubis, Diretor dos Pesos! as perdoe –
        O que lhe vale corações leves como plumas
        E as lembranças de um Sol e o luar?

Gustavo Rezende


P.ost S.criptum 
Meh. Nem lembro quando escrevi isso, mas tem tempo. Só "atualizei".